INPC: o que é, quem ele representa e como é calculado?

Por Laura Scalabrin Coutinho ·

O INPC explicado pela metodologia oficial do IBGE: população-objetivo, origem dos pesos na POF, as etapas do cálculo e onde consultar a série

O INPC costuma aparecer quando salários, benefícios e outros valores precisam ser reajustados pela inflação. Em termos simples, o INPC mede a variação de preços para famílias com renda de 1 a 5 salários mínimos. Mas essa definição, sozinha, diz pouco sobre como o índice realmente funciona.

Por que justamente essa faixa de renda? Quais famílias são consideradas? Em quais cidades os preços são coletados? E como milhares de preços observados ao longo do mês são transformados em um único número para o país?

Para entender o INPC, é preciso olhar para essa construção. É isso que vamos fazer ao longo deste artigo: entender quem o índice representa, de onde vêm seus pesos, como o IBGE realiza o cálculo e como interpretar os resultados divulgados todos os meses.

O que é o INPC?

O INPC é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, produzido pelo IBGE desde março de 1979 dentro do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor, o SNIPC, concebido em 1978 para unificar a metodologia dos índices de preços ao consumidor no Brasil. Hoje o sistema reúne o INPC e os índices da família IPCA: IPCA, IPCA-15 e IPCA-E, sendo este último calculado a partir dos resultados trimestrais do IPCA-15.

O objetivo oficial do índice é específico e vale ser apresentado com precisão: corrigir o poder de compra dos salários, medindo a variação de preços da cesta de consumo da população assalariada de mais baixo rendimento.

Antes de avançar, vale corrigir duas confusões comuns:

  • O INPC é do IBGE. Não é da FGV, que produz os índices da família IGP, nem da Fipe, que calcula o IPC da cidade de São Paulo.
  • Não existe INPC-15. A prévia quinzenal pertence ao IPCA, e se chama IPCA-15.

Quem calcula e para quem o índice olha?

A população-objetivo do INPC são as famílias com rendimento de 1 a 5 salários mínimos cuja pessoa de referência é assalariada, residentes nas áreas urbanas cobertas pelo SNIPC.

Cada parte dessa definição importa, inclusive os grupos que ficam de fora. O fato de a pessoa de referência precisar ser assalariada não é um detalhe: ela alinha o índice ao propósito de corrigir salários. O recorte de renda também não é arbitrário. Ele obedece a dois critérios explícitos do IBGE.

O primeiro é a cobertura: a faixa deve incluir pelo menos 50% das famílias com pessoa de referência assalariada residentes nas áreas urbanas do sistema.

O segundo busca garantir uma estrutura de consumo estatisticamente estável, o que leva à exclusão tanto das famílias com rendimento abaixo de um salário mínimo quanto daquelas com rendimentos considerados excessivamente altos.

Essa é a razão de o intervalo já ter sido diferente. Na criação dos índices, com base no Estudo Nacional da Despesa Familiar de 1974-1975, o INPC nasceu com a faixa de 1 a 5 salários mínimos. A Pesquisa de Orçamentos Familiares de 1987-1988 ampliou esse limite para 1 a 8 salários mínimos, faixa mantida pela POF 1995-1996. Com a POF 2002-2003, o limite superior caiu para 6 salários mínimos e, a partir da POF 2008-2009, voltou para 5. A POF 2017-2018, realizada entre junho de 2017 e julho de 2018, com despesas e rendimentos referenciados a janeiro de 2018, atualizou a estrutura de consumo incorporada aos índices em 2020, mas manteve a população-objetivo entre 1 e 5 salários mínimos.

O que permanece é o critério de cobertura de 50%. A faixa expressa em salários mínimos é resultado desse critério e pode mudar conforme muda a distribuição de renda.

Passo a passo: como o INPC é calculado?

O IBGE publica a metodologia completa. Para facilitar a compreensão, podemos resumir o processo em sete etapas, da definição dos pesos até o número nacional divulgado.

  1. Montagem da estrutura de pesos. O consumo é organizado em grupos, subgrupos, itens e subitens. O subitem é o nível mais desagregado com peso próprio. Os ponderadores vêm da Pesquisa de Orçamentos Familiares e refletem o quanto cada subitem representa na cesta da população-alvo. A estrutura em vigor é a da POF 2017-2018, incorporada a partir dos resultados de janeiro de 2020.
  2. Escolha dos locais de coleta. O cadastro de estabelecimentos é construído principalmente pela Pesquisa de Locais de Compra, que identifica onde as famílias efetivamente compram. Alguns subitens exigem uma metodologia específica de coleta, os chamados extra-PLC: aluguel de moradia, empregados domésticos, condomínio, serviços públicos e taxas.
  3. Definição dos produtos e serviços pesquisados. A Pesquisa de Especificação de Produtos e Serviços define o cadastro de produtos e o nível de detalhe usado na coleta, para que a comparação entre os meses seja feita entre produtos com especificações equivalentes.
  4. Coleta. As unidades de coleta são estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, concessionárias de serviços públicos e a internet. A coleta se estende, em geral, do dia 1 ao dia 30 do mês de referência, com entrevista assistida por computador.
  5. Cálculo do subitem. Para cada produto pesquisado, calcula-se a média aritmética dos preços observados nos diferentes estabelecimentos no mês, e esse preço médio é comparado com o do mês anterior. Em seguida, essas variações são combinadas, dentro de cada subitem, por meio de uma média geométrica simples.
  6. Agregação superior. Nos níveis seguintes de agregação, do item até o índice geral, o IBGE emprega a fórmula de Laspeyres, com os relativos de preços ponderados pelos valores de despesa obtidos na POF.
  7. Índice nacional. O resultado do Brasil é a média aritmética ponderada dos índices das áreas pesquisadas.

Resumindo em uma tabela:

Para quem consulta séries históricas, há ainda um detalhe importante: os números-índice do INPC têm base em dezembro de 1993, igual a cem.

Quais cidades o índice cobre?

O INPC cobre dezesseis áreas urbanas: as regiões metropolitanas de Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, mais o Distrito Federal e os municípios de Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís e Aracaju.

A cobertura foi construída aos poucos. O Rio de Janeiro entrou em janeiro de 1979, ainda no primeiro ano do índice. Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife vieram em junho do mesmo ano. São Paulo, Brasília e Belém foram incorporados em janeiro de 1980, seguidos por Fortaleza, Salvador e Curitiba em outubro daquele ano. Goiânia entrou em 1991; Vitória e Campo Grande, em 2014; e Rio Branco, São Luís e Aracaju completaram a cobertura atual em maio de 2018.

Há ainda outra diferença importante na construção do índice nacional: na sétima etapa do cálculo, quando os resultados regionais viram um número nacional, o INPC pondera as áreas pela população residente urbana. O IPCA pondera as mesmas áreas por rendimento monetário mensal familiar disponível.

Critérios diferentes produzem pesos diferentes, e a diferença não é pequena. Na estrutura da POF 2017-2018, São Paulo responde por 24,60 no INPC e 32,28 no IPCA. Belém tem peso 6,95 no INPC e 3,94 no IPCA.

Na prática, quando uma alta ou queda de preços se concentra em determinada região, os dois índices podem reagir de maneira diferente, e não apenas por medirem faixas de renda distintas. A geografia de cada um também é distinta.

Quando o INPC é divulgado?

A divulgação é mensal. O IBGE informa que, em geral, há cerca de oito dias úteis entre o encerramento da coleta e a publicação dos resultados. A data exata de cada divulgação é definida previamente no calendário oficial do instituto.

Para quem acompanha a divulgação em tempo real, há ainda uma particularidade: segundo a portaria que rege a divulgação de indicadores conjunturais do IBGE, os resultados são encaminhados às sete horas às autoridades da lista de precedência e liberados para a imprensa e para a internet às nove horas do dia da divulgação.

Também vale uma ressalva sobre o período de coleta: dizer que ela vai do dia 1 ao dia 30 é correto como regra geral, mas o IBGE publica o período exato de cada mês, e ele nem sempre coincide com o mês civil. Em fevereiro de 2026, por exemplo, a coleta ocorreu entre 30 de janeiro e 3 de março.

INPC vs IPCA: quais as principais diferenças?

Os dois índices vêm do mesmo sistema do IBGE, compartilham a coleta de preços e seguem a mesma lógica geral de cálculo.

A primeira diferença está na população de referência: o IPCA cobre famílias com rendimento de 1 a 40 salários mínimos, qualquer que seja a fonte de renda, enquanto o INPC considera famílias de 1 a 5 salários mínimos cuja pessoa de referência é assalariada.

Essa diferença também altera os pesos dos bens e serviços dentro de cada índice. Alimentação, habitação, transporte e outros grupos representam parcelas diferentes do orçamento de cada população e, por isso, recebem ponderações distintas. Além disso, INPC e IPCA usam critérios diferentes para ponderar as áreas pesquisadas, como descrito acima.

A escolha entre um e outro em contratos é outra conversa, com regras próprias, e está tratada em nosso conteúdo sobre qual índice usar em cada tipo de contrato.

Onde consultar a série oficial?

O IBGE dissemina os resultados pelo SIDRA, seu banco de tabelas agregadas. O Banco Central republica a série mensal no Sistema Gerenciador de Séries Temporais.

As duas primeiras fontes têm API pública em JSON, o que permite consultar o índice de dentro de um sistema em vez de copiar valores manualmente.

Isso ganha importância quando o INPC é consumido automaticamente por sistemas e aplicado em grande volume. O próprio IBGE mantém uma seção pública chamada "Erramos", em que documenta correções nos dados publicados.

Em julho de 2026, por exemplo, registrou uma inconsistência em resultados carregados no SIDRA e uma divergência entre o acumulado de doze meses citado no texto do release e o constante na tabela de índices regionais.

As correções foram documentadas publicamente e realizadas no mesmo dia, mas o episódio ilustra por que sistemas que consomem índices oficiais precisam de rastreabilidade: saber qual valor foi aplicado, em que data e a partir de qual fonte.

É justamente nesse ponto que entra uma camada de dados como a Partnr: distribuindo séries de indicadores macroeconômicos oficiais, incluindo o INPC, por API e por MCP, com estrutura padronizada. Os dados são públicos e gratuitos nas fontes originais; o que muda é o custo de mantê-los consistentes e auditáveis ao longo do tempo.

Como interpretar os números do INPC?

Ao consultar a série do INPC, é comum encontrar quatro formas de apresentação do indicador:

  • INPC mensal: mostra quanto os preços variaram em relação ao mês imediatamente anterior. Se o índice de julho foi de 0,40%, significa que, em média, a cesta pesquisada ficou 0,40% mais cara do que em junho.
  • INPC acumulado no ano: mede a variação dos preços desde dezembro do ano anterior até o mês consultado. O resultado não é obtido pela simples soma das taxas mensais, mas pela composição delas.
  • INPC acumulado em 12 meses: compara o nível de preços do mês atual com o mesmo mês do ano anterior, incorporando as variações dos doze meses do período.
  • Número-índice: representa o nível acumulado do índice ao longo do tempo. A série do INPC tem dezembro de 1993 como base 100, o que permite comparar períodos distantes e calcular a variação entre duas datas.

Conclusão

O INPC não é uma medida genérica de inflação. É um índice construído para uma finalidade específica, com uma população-objetivo delimitada por critérios estatísticos explícitos, pesos derivados de uma pesquisa de orçamentos familiares e uma cadeia de agregação que vai da média aritmética de preços em uma loja até a fórmula de Laspeyres no índice geral.

Entender esse desenho ajuda a explicar por que o INPC existe separadamente do IPCA, por que a faixa de renda mudou ao longo das décadas e por que dois índices produzidos pela mesma equipe, no mesmo dia, chegam a resultados diferentes.

Para acompanhar o número, o caminho é a fonte oficial: SIDRA para os dados do IBGE, SGS para a série republicada pelo Banco Central.

Perguntas frequentes

O que a sigla INPC significa?

Índice Nacional de Preços ao Consumidor. O "Amplo" que aparece no IPCA é justamente o que distingue os dois nomes, e se refere à abrangência maior de renda.

De onde vêm os pesos de cada item na cesta?

Da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE. A estrutura vigente vem da POF 2017-2018 e passou a valer a partir dos resultados de janeiro de 2020. Ela é atualizada quando uma nova POF é concluída.

O INPC é o índice oficial de inflação do Brasil?

Não. Esse papel é do IPCA, que serve de referência para a meta de inflação. O INPC tem finalidade própria, ligada à correção do poder de compra dos salários.

O acumulado em doze meses é a mesma coisa que o índice do mês?

Não. O resultado mensal é a variação de um único mês. O acumulado em doze meses encadeia os doze resultados mensais mais recentes, e é ele que costuma ser aplicado em correções anuais.

Fontes

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