Como criar um agente de IA conectado a dados reais
Por Laura Scalabrin Coutinho ·
Guia prático de como criar um agente de IA e conectá-lo a dados reais via RAG, API e MCP. Entenda os caminhos, os custos e por que os dados definem tudo.
Criar um agente de IA hoje é mais simples do que parece. Em poucas horas, com ferramentas certas, você monta algo que responde, decide passos e executa tarefas. O problema aparece depois: quando esse agente precisa dar uma resposta correta sobre o seu negócio, e não uma resposta plausível inventada.
A diferença entre uma demonstração bonita e um agente que funciona de verdade quase sempre está em um único ponto: os dados. Um agente desconectado de fontes confiáveis é um bom conversador. Um agente conectado a dados reais é uma ferramenta de trabalho.
Este guia mostra como criar um agente de IA do zero, quais caminhos existem (com ou sem código) e, principalmente, como conectá-lo a dados reais para que ele responda com base em fatos verificáveis, e não em suposição.
O que é um agente de IA (e por que não é só um chatbot)
Um agente de IA é um sistema que usa um modelo de linguagem para receber um objetivo, decidir os passos necessários, acionar ferramentas externas e executar ações até chegar a um resultado. Ele vai além de gerar texto: ele raciocina sobre a tarefa e age.
Essa é a diferença central em relação a um chatbot. Um chatbot tradicional segue um roteiro fixo ou responde a partir de um conjunto limitado de conhecimento. O agente encadeia ações, usa ferramentas e pode consultar dados externos para concluir um objetivo, com menos intervenção humana a cada passo.
Na prática, o ciclo de um agente costuma ser descrito como observar, planejar, agir e refletir, repetido até a tarefa terminar. É isso que permite a ele fazer coisas como buscar um dado, comparar valores e devolver uma resposta fundamentada, em vez de apenas completar uma frase.
O que você precisa antes de criar seu agente
Antes de escolher qualquer ferramenta, vale definir quatro coisas. Elas evitam a armadilha mais comum, que é montar um agente impressionante em uma demonstração e inútil no uso real.
- Objetivo claro: o que exatamente o agente precisa resolver, seja direto e objetivo nessa delimitação. Exemplo: "Responder perguntas sobre indicadores de ações listadas em bolsa brasileira".
- Ferramentas necessárias: quais ações ele precisa executar, como consultar uma API, buscar um documento ou registrar uma informação.
- Fontes de dados: de onde virão as informações que ele usa para responder. Este é um dos pontos mais centrais.
- Limites de atuação: o que o agente pode e não pode fazer, para evitar respostas fora de escopo ou ações indevidas.
Com esses quatro pontos definidos, a escolha da ferramenta e do caminho técnico fica muito mais direta.
Passo a passo para criar seu primeiro agente
O processo de criar um agente de IA segue uma sequência parecida, independente da ferramenta escolhida. Estes são os passos essenciais.
- Defina o objetivo e o escopo. Descreva em uma frase o que o agente faz e quais perguntas ou tarefas ele atende.
- Escolha a plataforma ou o framework. Pode ser uma solução sem código ou um framework de programação, dependendo da complexidade (mais sobre isso na próxima seção).
- Escreva as instruções do agente. Defina o comportamento, o tom e as regras. É aqui que você diz o que ele deve fazer, o que deve evitar e quando deve pedir ajuda.
- Conecte as ferramentas. Dê ao agente acesso às funções que ele precisa executar, como chamar uma API ou consultar uma base.
- Conecte as fontes de dados. Ligue o agente às informações reais que sustentam as respostas. Esta é a etapa que transforma o agente de uma demo em uma ferramenta confiável.
- Teste com casos reais. Use perguntas e situações do dia a dia, não só exemplos ideais. Ajuste as instruções conforme os erros aparecem.
- Refine e monitore. Acompanhe as respostas, corrija desvios e ajuste o acesso a ferramentas e dados ao longo do tempo.
No-code ou código: qual caminho escolher?
Existem dois caminhos principais para criar um agente de IA, e a escolha depende da complexidade do seu caso e do controle que você precisa.
Caminho sem código (no-code e low-code)
Permite montar um agente sem programar, usando plataformas de criação de assistentes dentro de ferramentas de IA generativa ou ferramentas de automação com blocos de agente. É o caminho mais rápido para um primeiro agente e para validar uma ideia. Plataformas de IA generativa populares oferecem recursos de assistentes personalizados, e ferramentas de automação como o n8n permitem montar fluxos com nós de agente. Os nomes e recursos específicos dessas plataformas mudam com frequência, então vale confirmar o que cada uma oferece no momento em que você for usar.
Caminho com código
Usa frameworks de orquestração de agentes, geralmente em Python ou JavaScript, que dão controle sobre estado, ferramentas, memória e integrações. É o caminho indicado quando você tem regras próprias, precisa de comportamento previsível e pretende colocar o agente em produção.
A regra prática é simples: comece sem código para validar rápido e migre para código quando precisar de controle, previsibilidade e integrações mais robustas. Nos dois casos, a qualidade final depende menos da ferramenta e mais dos dados que alimentam o agente.
Por que a maioria dos agentes falha: o problema dos dados
A maioria dos agentes falha porque responde a partir do que o modelo aprendeu no treinamento, e não a partir da realidade atual do seu negócio.
Um modelo de linguagem gera texto com base em padrões. Quando ele não tem a informação certa disponível, ele pode produzir uma resposta que parece correta, mas está errada. Esse fenômeno é conhecido como alucinação. Em um agente que precisa informar um número, um status ou um indicador, uma resposta plausível e errada é pior do que nenhuma resposta.
O problema não se resolve com um modelo melhor ou um prompt mais elaborado. Ele se resolve conectando o agente a dados reais e verificáveis, com rastreabilidade da fonte. Quando o agente busca a informação em uma fonte confiável antes de responder, ele deixa de adivinhar e passa a informar.
É por isso que a etapa de conexão a dados é a mais importante de todas. Um agente sem dados confiáveis não é um agente de trabalho, é uma demonstração.
Como conectar um agente de IA a dados reais
Existem três formas principais de conectar um agente a dados reais. Elas não são concorrentes, são complementares, e a escolha depende do tipo de informação que o agente precisa.
RAG (Retrieval-Augmented Generation)
É uma técnica em que o sistema busca trechos relevantes em uma base de conhecimento antes de gerar a resposta. O fluxo típico transforma documentos em vetores, armazena em um banco vetorial e recupera os trechos mais próximos da pergunta. RAG ancora a resposta em conteúdo real e reduz a alucinação, e funciona bem para dados textuais e documentais. O limite é que ele não substitui o acesso a dados estruturados e atualizados.
API via function calling
É o recurso pelo qual o modelo, em vez de só gerar texto, retorna uma chamada estruturada para uma API externa, recebe o resultado e continua o raciocínio. É o mecanismo que permite ao agente consultar um preço, buscar um registro ou puxar um indicador atualizado. Para dados vivos e estruturados, este é o caminho mais direto.
MCP
É um protocolo aberto que padroniza como o agente se conecta a ferramentas e fontes de dados. Em vez de criar uma integração customizada para cada combinação de agente e sistema, você conecta uma vez a um padrão único. Falamos dele em mais detalhe na próxima seção.
Para um agente que precisa de números confiáveis e atuais, a combinação de API com MCP costuma ser o caminho mais eficiente. RAG entra quando há também uma camada de documentos e texto a consultar.
O que é MCP, em linguagem simples
MCP significa Model Context Protocol. É um padrão aberto criado pela Anthropic e lançado em novembro de 2024 para padronizar como agentes de IA se conectam a ferramentas e fontes de dados externas.
A analogia mais usada é a do USB-C. Antes de um conector universal, cada dispositivo exigia um encaixe e um driver diferente. O MCP faz o mesmo papel para a IA: cria um padrão único para que qualquer agente compatível se conecte a qualquer fonte que exponha um servidor MCP. Isso resolve o problema de manter uma integração diferente para cada combinação de modelo e sistema.
Na estrutura do MCP, existe a aplicação onde você interage com a IA, um componente que traduz as intenções do agente e um servidor que expõe os dados e as ferramentas da fonte. Para o objetivo deste guia, o que importa é o efeito prático: com MCP, conectar um agente a uma fonte de dados vira uma tarefa de configuração, não um projeto de integração do zero.
O protocolo foi adotado por outros grandes players ao longo de 2025 e vem se firmando como padrão do setor. Se você quer entender a arquitetura e o funcionamento em profundidade, o conteúdo técnico dedicado ao MCP no blog cobre esse detalhe. Aqui, basta saber que ele é um dos caminhos mais práticos para dar dados reais ao seu agente.
Um exemplo aplicado a dados financeiros
Imagine um agente que responde perguntas sobre o mercado financeiro brasileiro. Sem dados reais, você corre o risco dele retornar uma informação defasada ou pior inventar uma informação. Com uma fonte conectada, ele consulta da base oficial antes de responder.
É esse tipo de conexão que a Partnr oferece, com uma API REST em JSON e um servidor MCP que ligam modelos e agentes de IA a dados do mercado financeiro brasileiro de forma estruturada. A cobertura inclui dados fundamentalistas da CVM, cotações e dados de mercado da B3, fundos como FIIs e ETFs, notícias de mercado e indicadores macroeconômicos como SELIC, IPCA, CDI, PIB e câmbio, a partir de fontes oficiais. Em vez de o agente estimar um indicador, ele consulta o dado real e responde com base nele.
Quanto custa e o que esperar do seu primeiro agente
O custo de criar um agente de IA depende da abordagem. Um agente simples, montado sem código, começa com o custo de uma assinatura de plataforma somado ao consumo do modelo de linguagem. Projetos com integrações próprias, dados específicos e regras de negócio têm custo maior, ligado ao desenvolvimento, ao volume de uso do modelo e às fontes de dados contratadas.
Sobre expectativas, vale um ajuste de realidade. Seu primeiro agente provavelmente vai acertar bem em cenários previstos e errar em situações de borda. Isso é normal. O trabalho de tornar um agente confiável está menos na montagem inicial e mais no ciclo de testar, conectar dados melhores e refinar as instruções.
O agente que você coloca no ar na primeira semana não é o agente que você terá em três meses. A diferença entre eles quase sempre é a qualidade da conexão com dados reais.
Conclusão
Criar um agente de IA ficou acessível. Montar um agente que responde bem em uma demonstração é questão de horas. O que separa esse agente de uma ferramenta confiável de trabalho é a conexão com dados reais.
Por isso, ao seguir o passo a passo, não trate a fonte de dados como um detalhe final. Ela é o que define se o seu agente informa ou apenas adivinha. Escolha o caminho de conexão adequado ao seu tipo de dado, RAG para documentos, API para dados estruturados e MCP para padronizar tudo isso, e priorize fontes verificáveis desde o início.
O próximo passo lógico é decidir quais dados o seu agente precisa consultar e como conectá-lo a eles de forma confiável. É essa decisão, mais do que a escolha da ferramenta, que vai determinar o valor real do que você construir.
Perguntas frequentes
O que é um agente de IA?
É um sistema baseado em um modelo de linguagem que recebe um objetivo, decide os passos, usa ferramentas externas e executa ações para chegar a um resultado, em vez de apenas gerar uma resposta de texto.
Qual a diferença entre um agente de IA e um chatbot?
Um chatbot tradicional segue um roteiro fixo ou responde a partir de um conjunto limitado de conhecimento. Um agente de IA raciocina sobre a tarefa, encadeia ações, usa ferramentas e pode acessar dados externos para concluir um objetivo, com menos intervenção humana a cada passo.
Preciso saber programar para criar um agente de IA?
Não necessariamente. Existem caminhos sem código que permitem montar um agente usando plataformas de assistentes e ferramentas de automação. Para casos mais complexos ou com regras próprias, frameworks de programação dão mais controle.
Como um agente de IA acessa dados reais?
Por três caminhos principais: RAG, que busca trechos relevantes em uma base de conhecimento; chamada de API via function calling, em que o agente aciona um serviço externo e recebe dados estruturados; e MCP, um protocolo aberto que padroniza a conexão a ferramentas e fontes de dados.
O que é MCP e para que serve?
MCP é o Model Context Protocol, um padrão aberto criado pela Anthropic e lançado em novembro de 2024. Ele padroniza como agentes de IA se conectam a ferramentas e fontes externas, evitando uma integração customizada para cada combinação de modelo e sistema.
Qual a diferença entre RAG e MCP?
Eles são complementares, não concorrentes. RAG é uma técnica para recuperar documentos relevantes e reduzir alucinação. MCP é um protocolo de conexão que padroniza o acesso a ferramentas e dados, e pode inclusive facilitar a implementação de RAG.
Por que agentes de IA alucinam e como reduzir isso?
Um modelo de linguagem gera texto a partir de padrões, então pode produzir informação plausível porém incorreta quando não tem a fonte certa. Conectar o agente a dados reais e verificáveis, com rastreabilidade da fonte, reduz esse risco de forma significativa.
Quanto custa criar um agente de IA?
Depende da abordagem. Um agente simples sem código começa com o custo da assinatura da plataforma mais o consumo do modelo. Projetos com integrações, dados e regras próprias têm custo maior, ligado a desenvolvimento, volume de uso e às fontes de dados.
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